A era do conhecimento, muito associada ao século XXI, é também designada da era da criatividade. Desde o início do século que se regista uma mudança de paradigma que resulta numa convergência cada vez mais acentuada dos aspectos económicos com os aspectos socioculturais. Esta convergência tem sido favorecida e acelerada pela velocidade de desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação.
Vivemos numa era global, em que o acesso à informação é fácil e possível a partir de qualquer ponto do planeta.
Vivemos numa era em que cada vez é menos clara a fronteira entre diferentes sociedades, os seus povos e os seus costumes. Vivemos numa era em que o conceito de propriedade intelectual começa a adquirir novos contornos, em que a partilha de conhecimento e de informação é uma necessidade para a geração de novos conceitos, novas ideias, novos conhecimentos. Vivemos numa era de partilha.
Este novo paradigma levanta novas questões. Questões que surgem no interior de cada sociedade e que são discutidas entre todas as sociedades. Questões cujas respostas comprometem o desenvolvimento sustentável destas mesmas sociedades e implicam o estabelecimento de um compromisso entre a integração de novidade sem abdicar a identidade, da tradição, da cultura.
Contudo, toda a tradição foi nalgum momento preciso um acto de pura criatividade e inovação. Mesmo em relação à cultura, têm surgido várias visões distintas: desde a visão aristotélica, em que apenas é cultura a “Alta Cultura”; à visão antropológica em que tudo é cultura, passando pela visão económica em que cultura é indústria e consumo.
O que é então necessário proteger? E o que se pode e deve desenvolver e divulgar? Quais são as fronteiras de um desenvolvimento e de um crescimento sustentável, que permita às sociedades apanharem o comboio do desenvolvimento sem se perderem, sem se transformarem todas na mesma coisa? Qual a melhor maneira de aproveitar o potencial criativo? Como incentivar a inovação e optimizar a introdução dos seus resultados nos diferentes sectores da economia? Que áreas têm um potencial de desenvolvimento superior?
É neste contexto de dúvidas e de questões que surge o conceito de economia criativa.
Em 2003, Richard Florida criou um índice de criatividade que se subdivide em três sub-índices: (a) Talento que contempla o número de investigadores, o número de universitários e o número de profissionais em sectores criativos; (b) Tecnologia relacionada com inovação e pesquisa; (c) Tolerância predisposição para rever valores tradicionais e atitudes frente às minorias e integração da diferença. Para este autor, o conceito de economia criativa é um conceito amplo que abrange todos os profissionais que oferecem serviços baseados no conhecimento.
Mais recentemente, em 2008, o conceito de economia criativa foi trabalhado na Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCD). Segundo o relatório desta conferência (Nações Unidas, 2008), o conceito de Economia Criativa é um conceito em permanente evolução baseado na potencialidade de bens criativos para gerar crescimento e desenvolvimento.
Na União Europeia tem-se verificado uma enorme dificuldade em chegar a um acordo em relação ao conceito. Cada Nação defende e trata a criatividade e a cultura de formas distintas. Esta disparidade não só é natural como saudável. Contudo, para o estabelecimento da Europa como um pólo criativo, aspecto essencial para a competitividade da União Europeia, é necessário colocar a cultura e a criação no cerne do projecto europeu para beneficiar a sua economia e o seu desenvolvimento.
A economia criativa tem assim muitas visões e acepções, mas para a compreensão do seu significado pode ser facilitada pela identificação e estabelecimento de uma relação entre os conceitos que se encontram na sua génese e/ou que com ela se relacionam:
- Criatividade,
- Inovação,
- Economia,
- Arte, cultura e identidade
- Desenvolvimento sustentado,
- Design,
- Tecnologia, e novas tecnologias de informação e de comunicação
- Propriedade intelectual,
- Integração e inclusão social.
A força do conceito Economia Criativa deriva do seu forte potencial para promover não só o crescimento da economia e o emprego, como também, a inclusão social, a diversidade cultural e o desenvolvimento humano. Os aspectos económicos, culturais, tecnológicos e sociais, são os motores de desenvolvimento das diferentes nações em todo o mundo, e a inter-relação cada vez mais estreita que se estabelece entre eles constitui o novo paradigma do mundo contemporâneo que se caracteriza por ser cada vez mais globalizado.
Ainda segundo o relatório da CNUCD, a criatividade, o conhecimento e o acesso à informação são elementos cada vez mais reconhecidos como potentes motores de crescimento económico e de promoção do desenvolvimento a nível mundial. A título de exemplo, no ano de 2007 no Reino Unido, 7% do PIB foi resultado da economia criativa.
A contabilização da “economia” da economia criativa não é fácil na medida em que os seus resultados são indirectos. Estudos sócio-económicos permitem avaliar este impacto através de variáveis como a qualidade de vida percebida pelos habitantes de determinada região, o número de pessoas que optaram por viver numa determinada região em detrimento de outras regiões, a capacidade de atrair e reter talentos em determinado local, o desenvolvimento do comércio local e das infra-estruturas hoteleiras, a migração de pessoas para uma determinada região para participar em eventos temáticos e pontuais, o desenvolvimento de públicos e de “consumidores” de actividades culturais e de produtos artísticos, a produção de propriedade intelectual por região, entre outros.
Em suma, é possível observar as consequências económicas da criatividade na maneira como contribui para a iniciativa empresarial, para a inovação, para a melhoria da produtividade e para a promoção do crescimento económico em cada região.
Uma forma de caracterizar a economia criativa é definindo-a como sendo um conjunto de actividades económicas baseadas no conhecimento, com impacto no desenvolvimento dos países, e que relaciona as múltiplas áreas da economia, tanto a níveis macro, como a níveis micro (Nações Unidas, 2008). Estas actividades económicas podem ser descritas como as indústrias criativas, que se definem como sendo ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que utilizam a criatividade e propriedade intelectual como recurso primário.
As indústrias criativas compreendem um conjunto de actividades, baseadas no conhecimento, e que produzem bens e serviços de conteúdo criativo com valor económico acrescentado e direccionado para o mercado, sendo desta forma, transversais a diferentes dimensões das sociedades:
- Económica – a capacidade de gerar riqueza no sector criativo não tem apenas impactos económicos directos. Eles dinamizam de forma indirecta todo um conjunto de sectores da economia cujos resultados, apesar de serem difíceis de contabilizar, se revestem da maior importância para as economias locais.
- Urbana / Territorial – o território e a sua população fornecem o contexto para o desenvolvimento de dinâmicas de oferta e procura de bens e serviços de valor acrescentado de diferentes índoles (culturais, tecnológicos, lazer, entre outros). É no território que se processam as interacções que se encontram na base da economia criativa.
- Cultural – a dimensão cultural assume um papel da maior relevância na economia criativa, na medida em que define a identidade de um povo que deriva da sua história e se revela na sua actividade artística, nas suas dinâmicas sociais e na capacidade de inovar.
- Social – a economia criativa está nas pessoas. O ser humano é um ser criativo e as sociedades são sistemas criativos que se auto-organizam, que evoluem e que geram interacções permanentes que geram novas ideias / novo conhecimento.
- Comunicação – como em qualquer outro contexto a comunicação é uma dimensão determinante para o sucesso das diferentes iniciativas e para que os seus resultados tenham impactos não só na região como também fora das suas fronteiras.
Para Richard Florida, o desenvolvimento económico de um país é determinado pelas ideias, pela criatividade e pela cultura desse mesmo país.
A economia criativa abrange sectores cujos profissionais oferecem bens e serviços baseados na criatividade e no conhecimento. Já em 1994, a Inglaterra viu-se confrontada com duas necessidades prementes (www.economiacriativa.com):
- Por um lado desenvolver determinados segmentos da sociedade com foco na criatividade e capacidade intelectual;
- Por outro, privilegiar o desenvolvimento de três grupos de actividades com grandes exigências ao nível da qualificação, do talento criativo e que cujos resultados representam valor acrescentado: Arte e Cultura, Electrónica e Design.
Actualmente, a aplicação do conceito de economia criativa é abrangente a todos os sectores da actividade económica, incidindo particularmente nas designadas indústrias criativas.
O primeiro Fórum Internacional das “Indústrias Criativas”, organizado na cidade de St. Petersburg em Setembro de 2002, definiu como Indústrias Criativas aquelas que têm a sua origem na criatividade individual, habilidades e talentos que têm potencial de riqueza e criação de empregos através da geração e da exploração da propriedade intelectual. Este termo é utilizado para descrever a actividade empresarial na qual o valor económico está ligado ao conteúdo cultural, unindo a força tradicional da chamada cultura clássica com o valor agregado do talento empresarial e os novos talentos da publicidade e da comunicação.
O relatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento de 2008 referencia ainda que as indústrias criativas se encontram entre os sectores mais dinâmicos do comércio mundial, representando já 10% do PIB mundial e com uma taxa de crescimento anual de 7%. O relatório acrescenta ainda que nos países mais avançados, as indústrias criativas estão a emergir como uma opção estratégica para revigorar o crescimento económico, a criação de emprego e a coesão social.
O sector da cultura tem-se mostrado particularmente dinâmico na aplicação do conceito numa tentativa de se afirmar perante os restantes sectores da economia. Segundo Ana Carvalho (www.pisa-papeis.com), o sector cultural representa em termos europeu 2,6% do PIB e gera emprego na ordem dos 3,1%, tendo tido um crescimento entre 1999 e 2003 de 19,7%, constituindo-se assim como o sector de maior crescimento europeu.
A cultura encontra-se no centro dos novos ecossistemas de criatividade e além do visível peso para economia, o sector cultural é determinante para o desenvolvimento sustentável de um país, na medida em que através do cruzamento entre a tradição, os hábitos e costumes de um “povo” e a introdução de novas formas artísticas e novos conteúdos oriundos de todo o mundo e de todas as culturas, permite responder de forma positiva à globalização, dando contributos que se revestem da maior importância para a coesão social e para a manutenção da identidade de cada região.
A disseminação das actividades culturais tem impactos muito positivos ao nível do turismo e no desenvolvimento das regiões através da criação de ícones e de regiões com marca reconhecidas em todo o mundo (cidades património da humanidade, Bilbau, capitais europeias da cultura, Barcelona, etc.).
Os rankings mundiais de produção de propriedade intelectual lançaram uma competição saudável ao nível das diferentes nações. Todas elas desenvolvem medidas com o objectivo de subir na escala de avaliação mundial. Neste sector surgem dois desafios que passam pelo (a) controlo da pirataria de forma a proteger a propriedade intelectual e (b) a complacência que pode levar a que uma economia criativa hoje perca a sua preponderância no futuro. É assim necessário manter uma postura de regulamentação e de alguma agressividade perante a propriedade intelectual, de forma a não impor limites à sua produção e a proteger os seus protagonistas.
O Design é a estrela da economia criativa na medida em que consegue fazer convergir um conjunto de domínios distintos – tecnologia, arte e cultura, comunicação e marketing, ciência, ecologia, entre outros.
Para Ruth Klotzel o Design é o elo de ligação entre o mundo imaterial e o mundo material e é o link central entre os mundos da arte e do comércio. Ainda segundo este autor, o design tem a capacidade de participar dessa experiência singular do viver, construindo situações e objectos que surpreendem, emocionam e funcionam, comunicando, materializando experiências, saberes, que são o património imaterial de um povo.
Tal como noutros sectores o papel do designer é preponderante para a produção de novas ideias e de novos paradigmas.
O principal aspecto diferenciador do paradigma introduzido pela economia criativa é que ela promove um desenvolvimento sustentável com base no ser humano e não um mero crescimento económico.
O conceito surgiu pelo esgotamento dos modelos de desenvolvimento tradicionais que culminaram em cidades desprovidas de identidade e de cultura; em sociedades pouco inclusivas e sem mecanismos de resposta para os fenómenos da globalização; em massas de indivíduos constituídas por pessoas transparentes, que vivem com medo de sair da sua área de conforto, de experimentar, de arriscar, que se apoiam em valores ditos tradicionais mas que camuflam sentimentos de preconceito e de discriminação para com o próximo e para com o que não conhecem; num estilo de vida virado para o consumo.
A criatividade é um recurso inesgotável, cujo potencial aumenta quanto maior for a sua utilização e aplicação. A criatividade é o motor da nova economia. A criatividade é a base da criação de valor.
Já não estamos focados em meros produtos / serviços, mas sim em produtos/serviços que tenham valor acrescido, que promovam o nosso desenvolvimento e a nossa integração na comunidade. Produtos/serviços que se sejam parte da nossa identidade mas que nos permitam ver mais longe, mais novo, mais limpo.
Segundo Jordi Pardo (director e consultor do Laboratório de Cultura da Barcelona Média), o sector quinquenário da economia é o sector da economia criativa, o sector das actividades do conhecimento, o sector da cultura, do ócio, do turismo, da tecnologia aplicada, da inovação e da criatividade.
A economia criativa é uma economia de valores: de comunhão, de partilha, de integração, de inclusão, de evolução permanente, de ecologia. Estamos perante uma nova forma de pensar as sociedades: centrada no indivíduo mas em prol de uma comunidade.
Referências:
http://www.economiacriativa.com/
http://www.economiacriativa.sp.gov.br
http://www.culturaemercado.com.br/post/economia-criativa-em-debate/
http://economiadacultura.blogspot.com/2007/06/economia-criativa-dos-bastidores-ao.html
http://www.unctad.org/sp/docs/ditc20082ceroverview_sp.pdf
http://portal.unesco.org/culture/en/ev.php-URL_ID=34326&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html
http://www.partes.com.br/artesanato/artesanatoturismo.asp
http://www.democratizacaocultural.com.br/Conhecimento/Noticias/Paginas/080124_economia_criativa.aspx
