quarta-feira, 18 de março de 2009

Economia Criativa

A era do conhecimento, muito associada ao século XXI, é também designada da era da criatividade. Desde o início do século que se regista uma mudança de paradigma que resulta numa convergência cada vez mais acentuada dos aspectos económicos com os aspectos socioculturais. Esta convergência tem sido favorecida e acelerada pela velocidade de desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação.

Vivemos numa era global, em que o acesso à informação é fácil e possível a partir de qualquer ponto do planeta.

Vivemos numa era em que cada vez é menos clara a fronteira entre diferentes sociedades, os seus povos e os seus costumes. Vivemos numa era em que o conceito de propriedade intelectual começa a adquirir novos contornos, em que a partilha de conhecimento e de informação é uma necessidade para a geração de novos conceitos, novas ideias, novos conhecimentos. Vivemos numa era de partilha.

Este novo paradigma levanta novas questões. Questões que surgem no interior de cada sociedade e que são discutidas entre todas as sociedades. Questões cujas respostas comprometem o desenvolvimento sustentável destas mesmas sociedades e implicam o estabelecimento de um compromisso entre a integração de novidade sem abdicar a identidade, da tradição, da cultura.

Contudo, toda a tradição foi nalgum momento preciso um acto de pura criatividade e inovação. Mesmo em relação à cultura, têm surgido várias visões distintas: desde a visão aristotélica, em que apenas é cultura a “Alta Cultura”; à visão antropológica em que tudo é cultura, passando pela visão económica em que cultura é indústria e consumo.

O que é então necessário proteger? E o que se pode e deve desenvolver e divulgar? Quais são as fronteiras de um desenvolvimento e de um crescimento sustentável, que permita às sociedades apanharem o comboio do desenvolvimento sem se perderem, sem se transformarem todas na mesma coisa? Qual a melhor maneira de aproveitar o potencial criativo? Como incentivar a inovação e optimizar a introdução dos seus resultados nos diferentes sectores da economia? Que áreas têm um potencial de desenvolvimento superior?

É neste contexto de dúvidas e de questões que surge o conceito de economia criativa.


O Conceito

Em 2003, Richard Florida criou um índice de criatividade que se subdivide em três sub-índices: (a) Talento que contempla o número de investigadores, o número de universitários e o número de profissionais em sectores criativos; (b) Tecnologia relacionada com inovação e pesquisa; (c) Tolerância predisposição para rever valores tradicionais e atitudes frente às minorias e integração da diferença. Para este autor, o conceito de economia criativa é um conceito amplo que abrange todos os profissionais que oferecem serviços baseados no conhecimento.

Mais recentemente, em 2008, o conceito de economia criativa foi trabalhado na Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCD). Segundo o relatório desta conferência (Nações Unidas, 2008), o conceito de Economia Criativa é um conceito em permanente evolução baseado na potencialidade de bens criativos para gerar crescimento e desenvolvimento.

Na União Europeia tem-se verificado uma enorme dificuldade em chegar a um acordo em relação ao conceito. Cada Nação defende e trata a criatividade e a cultura de formas distintas. Esta disparidade não só é natural como saudável. Contudo, para o estabelecimento da Europa como um pólo criativo, aspecto essencial para a competitividade da União Europeia, é necessário colocar a cultura e a criação no cerne do projecto europeu para beneficiar a sua economia e o seu desenvolvimento.

A economia criativa tem assim muitas visões e acepções, mas para a compreensão do seu significado pode ser facilitada pela identificação e estabelecimento de uma relação entre os conceitos que se encontram na sua génese e/ou que com ela se relacionam:

  • Criatividade,
  • Inovação,
  • Economia,
  • Arte, cultura e identidade
  • Desenvolvimento sustentado,
  • Design,
  • Tecnologia, e novas tecnologias de informação e de comunicação
  • Propriedade intelectual,
  • Integração e inclusão social.


A força do conceito Economia Criativa deriva do seu forte potencial para promover não só o crescimento da economia e o emprego, como também, a inclusão social, a diversidade cultural e o desenvolvimento humano. Os aspectos económicos, culturais, tecnológicos e sociais, são os motores de desenvolvimento das diferentes nações em todo o mundo, e a inter-relação cada vez mais estreita que se estabelece entre eles constitui o novo paradigma do mundo contemporâneo que se caracteriza por ser cada vez mais globalizado.

Ainda segundo o relatório da CNUCD, a criatividade, o conhecimento e o acesso à informação são elementos cada vez mais reconhecidos como potentes motores de crescimento económico e de promoção do desenvolvimento a nível mundial. A título de exemplo, no ano de 2007 no Reino Unido, 7% do PIB foi resultado da economia criativa.

A contabilização da “economia” da economia criativa não é fácil na medida em que os seus resultados são indirectos. Estudos sócio-económicos permitem avaliar este impacto através de variáveis como a qualidade de vida percebida pelos habitantes de determinada região, o número de pessoas que optaram por viver numa determinada região em detrimento de outras regiões, a capacidade de atrair e reter talentos em determinado local, o desenvolvimento do comércio local e das infra-estruturas hoteleiras, a migração de pessoas para uma determinada região para participar em eventos temáticos e pontuais, o desenvolvimento de públicos e de “consumidores” de actividades culturais e de produtos artísticos, a produção de propriedade intelectual por região, entre outros.

Em suma, é possível observar as consequências económicas da criatividade na maneira como contribui para a iniciativa empresarial, para a inovação, para a melhoria da produtividade e para a promoção do crescimento económico em cada região.

Uma forma de caracterizar a economia criativa é definindo-a como sendo um conjunto de actividades económicas baseadas no conhecimento, com impacto no desenvolvimento dos países, e que relaciona as múltiplas áreas da economia, tanto a níveis macro, como a níveis micro (Nações Unidas, 2008). Estas actividades económicas podem ser descritas como as indústrias criativas, que se definem como sendo ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que utilizam a criatividade e propriedade intelectual como recurso primário.

As indústrias criativas compreendem um conjunto de actividades, baseadas no conhecimento, e que produzem bens e serviços de conteúdo criativo com valor económico acrescentado e direccionado para o mercado, sendo desta forma, transversais a diferentes dimensões das sociedades:

  • Económica – a capacidade de gerar riqueza no sector criativo não tem apenas impactos económicos directos. Eles dinamizam de forma indirecta todo um conjunto de sectores da economia cujos resultados, apesar de serem difíceis de contabilizar, se revestem da maior importância para as economias locais.
  • Urbana / Territorial – o território e a sua população fornecem o contexto para o desenvolvimento de dinâmicas de oferta e procura de bens e serviços de valor acrescentado de diferentes índoles (culturais, tecnológicos, lazer, entre outros). É no território que se processam as interacções que se encontram na base da economia criativa.
  • Cultural – a dimensão cultural assume um papel da maior relevância na economia criativa, na medida em que define a identidade de um povo que deriva da sua história e se revela na sua actividade artística, nas suas dinâmicas sociais e na capacidade de inovar.
  • Social – a economia criativa está nas pessoas. O ser humano é um ser criativo e as sociedades são sistemas criativos que se auto-organizam, que evoluem e que geram interacções permanentes que geram novas ideias / novo conhecimento.
  • Comunicação – como em qualquer outro contexto a comunicação é uma dimensão determinante para o sucesso das diferentes iniciativas e para que os seus resultados tenham impactos não só na região como também fora das suas fronteiras.


Aplicação

Para Richard Florida, o desenvolvimento económico de um país é determinado pelas ideias, pela criatividade e pela cultura desse mesmo país.

A economia criativa abrange sectores cujos profissionais oferecem bens e serviços baseados na criatividade e no conhecimento. Já em 1994, a Inglaterra viu-se confrontada com duas necessidades prementes (www.economiacriativa.com):

  • Por um lado desenvolver determinados segmentos da sociedade com foco na criatividade e capacidade intelectual;
  • Por outro, privilegiar o desenvolvimento de três grupos de actividades com grandes exigências ao nível da qualificação, do talento criativo e que cujos resultados representam valor acrescentado: Arte e Cultura, Electrónica e Design.

Actualmente, a aplicação do conceito de economia criativa é abrangente a todos os sectores da actividade económica, incidindo particularmente nas designadas indústrias criativas.

O primeiro Fórum Internacional das “Indústrias Criativas”, organizado na cidade de St. Petersburg em Setembro de 2002, definiu como Indústrias Criativas aquelas que têm a sua origem na criatividade individual, habilidades e talentos que têm potencial de riqueza e criação de empregos através da geração e da exploração da propriedade intelectual. Este termo é utilizado para descrever a actividade empresarial na qual o valor económico está ligado ao conteúdo cultural, unindo a força tradicional da chamada cultura clássica com o valor agregado do talento empresarial e os novos talentos da publicidade e da comunicação.

O relatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento de 2008 referencia ainda que as indústrias criativas se encontram entre os sectores mais dinâmicos do comércio mundial, representando já 10% do PIB mundial e com uma taxa de crescimento anual de 7%. O relatório acrescenta ainda que nos países mais avançados, as indústrias criativas estão a emergir como uma opção estratégica para revigorar o crescimento económico, a criação de emprego e a coesão social.

O sector da cultura tem-se mostrado particularmente dinâmico na aplicação do conceito numa tentativa de se afirmar perante os restantes sectores da economia. Segundo Ana Carvalho (www.pisa-papeis.com), o sector cultural representa em termos europeu 2,6% do PIB e gera emprego na ordem dos 3,1%, tendo tido um crescimento entre 1999 e 2003 de 19,7%, constituindo-se assim como o sector de maior crescimento europeu.

A cultura encontra-se no centro dos novos ecossistemas de criatividade e além do visível peso para economia, o sector cultural é determinante para o desenvolvimento sustentável de um país, na medida em que através do cruzamento entre a tradição, os hábitos e costumes de um “povo” e a introdução de novas formas artísticas e novos conteúdos oriundos de todo o mundo e de todas as culturas, permite responder de forma positiva à globalização, dando contributos que se revestem da maior importância para a coesão social e para a manutenção da identidade de cada região.

A disseminação das actividades culturais tem impactos muito positivos ao nível do turismo e no desenvolvimento das regiões através da criação de ícones e de regiões com marca reconhecidas em todo o mundo (cidades património da humanidade, Bilbau, capitais europeias da cultura, Barcelona, etc.).

Os rankings mundiais de produção de propriedade intelectual lançaram uma competição saudável ao nível das diferentes nações. Todas elas desenvolvem medidas com o objectivo de subir na escala de avaliação mundial. Neste sector surgem dois desafios que passam pelo (a) controlo da pirataria de forma a proteger a propriedade intelectual e (b) a complacência que pode levar a que uma economia criativa hoje perca a sua preponderância no futuro. É assim necessário manter uma postura de regulamentação e de alguma agressividade perante a propriedade intelectual, de forma a não impor limites à sua produção e a proteger os seus protagonistas.

O Design é a estrela da economia criativa na medida em que consegue fazer convergir um conjunto de domínios distintos – tecnologia, arte e cultura, comunicação e marketing, ciência, ecologia, entre outros.
Para Ruth Klotzel o Design é o elo de ligação entre o mundo imaterial e o mundo material e é o link central entre os mundos da arte e do comércio. Ainda segundo este autor, o design tem a capacidade de participar dessa experiência singular do viver, construindo situações e objectos que surpreendem, emocionam e funcionam, comunicando, materializando experiências, saberes, que são o património imaterial de um povo.

Tal como noutros sectores o papel do designer é preponderante para a produção de novas ideias e de novos paradigmas.


Discussão

O principal aspecto diferenciador do paradigma introduzido pela economia criativa é que ela promove um desenvolvimento sustentável com base no ser humano e não um mero crescimento económico.

O conceito surgiu pelo esgotamento dos modelos de desenvolvimento tradicionais que culminaram em cidades desprovidas de identidade e de cultura; em sociedades pouco inclusivas e sem mecanismos de resposta para os fenómenos da globalização; em massas de indivíduos constituídas por pessoas transparentes, que vivem com medo de sair da sua área de conforto, de experimentar, de arriscar, que se apoiam em valores ditos tradicionais mas que camuflam sentimentos de preconceito e de discriminação para com o próximo e para com o que não conhecem; num estilo de vida virado para o consumo.

A criatividade é um recurso inesgotável, cujo potencial aumenta quanto maior for a sua utilização e aplicação. A criatividade é o motor da nova economia. A criatividade é a base da criação de valor.

Já não estamos focados em meros produtos / serviços, mas sim em produtos/serviços que tenham valor acrescido, que promovam o nosso desenvolvimento e a nossa integração na comunidade. Produtos/serviços que se sejam parte da nossa identidade mas que nos permitam ver mais longe, mais novo, mais limpo.

Segundo Jordi Pardo (director e consultor do Laboratório de Cultura da Barcelona Média), o sector quinquenário da economia é o sector da economia criativa, o sector das actividades do conhecimento, o sector da cultura, do ócio, do turismo, da tecnologia aplicada, da inovação e da criatividade.

A economia criativa é uma economia de valores: de comunhão, de partilha, de integração, de inclusão, de evolução permanente, de ecologia. Estamos perante uma nova forma de pensar as sociedades: centrada no indivíduo mas em prol de uma comunidade.

Referências:

http://www.pisa-papeis.com

http://www.economiacriativa.com/

http://www.economiacriativa.sp.gov.br

http://www.culturaemercado.com.br/post/economia-criativa-em-debate/

http://economiadacultura.blogspot.com/2007/06/economia-criativa-dos-bastidores-ao.html

http://www.unctad.org/sp/docs/ditc20082ceroverview_sp.pdf

http://www.agenciainova.pt/cgibin/eloja21.exe?myid=agenciainova&titles=06&cli=sn&id=16&mn=4&sbm=1&tpl=eixos

http://criar2009.gov.pt/

http://portal.unesco.org/culture/en/ev.php-URL_ID=34326&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html

http://www.partes.com.br/artesanato/artesanatoturismo.asp

http://www.inovaforum.org/inovaforum/docs/Dossiers/Microsoft%20Word%20-%20Dossier_Economia%20Criativa_RevisaoFin_.pdf

http://www.democratizacaocultural.com.br/Conhecimento/Noticias/Paginas/080124_economia_criativa.aspx

segunda-feira, 17 de março de 2008

A formação em empresas

Uma das coisas que mais prazer me dá profissionalmente é dar formação em empresas directamente aos seus trabalhadores.
Apesar da minha experiência neste sector não ser tão vasta como na formação profissional, tenho tido resultados muito positivos neste contexto.
Para que tudo corra bem, é sempre necessário conhecer o trabalho da empresa e as operações de cada trabalhador. Este trabalho prévio exige algum esforço por parte do formador dado que fica de parte a possibilidade de utilizar conteúdos preparados para outras formações.
Este formato permite-nos (com alguma vaidade) ter a percepção de que os trabalhadores encontram utilidade naquela formação e que sentem que alguém fala directamente para eles com o intuito de os ajudar a resolver ou a lidar com os problemas no dia-a-dia do seu trabalho.
Penso que a formação só deveria ser assim!

O MESG

Recomendo a todos os meus amigos uma visita ao site do novo mestrado da FEUP: MESG
https://www.fe.up.pt/si/CURSOS_GERAL.FORMVIEW?p_cur_sigla=MESG

Estou no segundo semestre de aulas e tenho cada vez mais espectativas em relação ao sucesso desta formação no mercado de trabalho.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Artigo que escrevi

O Papel da Ergonomia na Prevenção de Lesões Músculo-Esqueléticas
As lesões músculo-esqueléticas relacionadas como trabalho (LMELT) são patologias a nível do aparelho músculo-esquelético cuja origem está cada vez mais relacionada com factores de risco laborais. Os membros superiores e a coluna vertebral são os segmentos corporais mais afectados por estas patologias.

Como consequências directas das LMELT surgem a dor e as alterações funcionais (redução da amplitude e velocidade dos movimentos); como consequências indirectas surge a perturbação ao nível da qualidade de vida e da produtividade, podendo levar, em casos extremos, à incapacidade do indivíduo. Estas consequências comportam custos, quer para o indivíduo, que, além de poder ficar incapacitado de trabalhar, também sente as mesmas limitações funcionais na sua vida fora do trabalho, quer para a empresa, devido aos encargos financeiros inerentes ao absentismo e à baixa de produtividade.

As LMELT têm já um quadro clínico bem definido, e, aspectos como a elevada repetitividade de movimentos, a solicitação permanente dos mesmos grupos articulares, o posicionamento do operador em relação ao seu posto de trabalho, as posturas adoptadas e a força aplicada constituem os principais factores de risco para o seu aparecimento.

Estes aspectos dependem das características da actividade e do posto de trabalho em que essa actividade é desenvolvida, e, conhecer os factores que dão origem a estas patologias, é um passo importante para encontrar medidas de prevenção. Já em 1996, a NIOSH (National Institute of Occupational Safety and Health) publicou um relatório em que afirmava que a probabilidade de ocorrência de lesões músculo-esqueléticas é tanto maior quanto maior for o desequilíbrio entre as solicitações da tarefa e as capacidades funcionais do indivíduo. O estado fisiológico e psicológico, a idade, o género sexual e os antecedentes pessoais, são alguns factores que podem estar na base do desequilíbrio existente.

Neste contexto a Ergonomia assume um papel cada vez mais importante. Definindo este conceito de forma simples falamos em adaptar o trabalho e as condições em que é realizado ao Homem, ao operador humano. A Análise Ergonómica permite, através do conhecimento sobre o Homem e sobre os sistemas, identificar os factores de risco e estudar soluções de concepção e/ou organização do trabalho adequadas para cada situação específica.

A especificidade da ergonomia em relação a outras ciências do trabalho prende-se com o seu objecto de intervenção – a Actividade de Trabalho. A Actividade de Trabalho é o conjunto das interacções entre o Homem e o seu envolvimento (objectos, ferramentas, espaço físico, organização do trabalho, etc.).

O Ergonomista utiliza uma linguagem que lhe permite comunicar com todos os intervenientes do sistema produtivo, desde a engenharia à medicina do trabalho, passando pelos recursos humanos. Este aspecto permite analisar cada situação de forma muito mais aprofundada e, consequentemente, desenvolver recomendações muito mais adaptadas a cada situação, mas o que realmente constitui uma vantagem é a sua abordagem metodológica.

A análise de um sistema de trabalho que tenha como consequências para o operador as LMELT inicia-se no conhecimento do sistema produtivo, ou seja, no levantamento do objectivo e das características do posto, das ferramentas utilizadas, da organização do trabalho, etc. Nesta etapa já é possível elaborar hipóteses que orientem a etapa seguinte – a Análise da Actividade, ou seja, a análise da reposta que o operador dá ao que lhe é pedido para fazer.

Esta segunda etapa está assente na observação do trabalhador e pretende compreender os processos mentais e físicos postos em jogo pelo trabalhador durante a sua jornada de trabalho. Mais do que identificar, caracterizar e avaliar as posturas adoptadas, trata-se de explicar os factores que se encontram na origem de cada problema. Só assim é possível eliminar os factores de risco na sua origem.

O objectivo final da Intervenção Ergonómica é a optimização das interacções existentes num sistema produtivo (entre o Homem e a “Máquina”), ou seja, rentabilizar um sistema diminuindo as consequências para o bem-estar do operador. Para atingir este objectivo há duas formas de intervenção distintas: Intervenção sobre os sistemas de trabalho, processos ou produtos, com o objectivo de os adequar às características do utilizador e ao seu modo de funcionamento, assim como à natureza das actividades em jogo, de forma a eliminar todos os factores de constrangimento, risco ou nocividade. Intervenção ao nível do operador humano através da formação, tornando-o apto para a realização das tarefas que lhe são atribuídas, e preparando-o para as transformações do trabalho decorrentes da evolução tecnológica.

Seja qual for o nível da intervenção, o resultado será uma minimização do desequilíbrio existente entre as condições de trabalho e as características e capacidades do indivíduo e, consequentemente, uma diminuição do risco de LMELT.

A prevenção de lesões músculo-esqueléticas é hoje possível através da adopção de boas práticas que já demonstraram ter resultados, como por exemplo a redução da repetitividade, implementação de planos de rotatividade, automatização de processos de trabalho particularmente penosos, substituição e/ou manutenção de ferramentas de trabalho, diminuição do trabalho em posturas estáticas, etc.

Contudo, a Ergonomia consegue ir mais longe, elaborando para cada situação um diagnóstico preciso acerca dos factores de risco que se encontram presentes, e um conjunto de recomendações específicas, tendo em vista a sua eliminação.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Porque é que a Ergonomia ainda não é reconhecida pelas empresas como sendo uma mais valia?

Todas as semanas passo algum tempo no computador a mandar CV's e cartas de apresentação para empresas. Por mais que me esforce por expor as vantagens da ergonomia de forma simples e directa, sinto sempre que as pessoas que recebem vão continuar sem perceber o que estou a tentar dizer.
E isto acontece porque não têm exemplos de como funciona a ergonomia, não têm um mapa mental que lhes indique se é ou não vantajoso.
(E eu ainda não sei falar sob a forma de números…)
Tenho a certeza absoluta de que se tivesse uma empresa, a recepção das minhas investidas seria diferente! Porque deixava de ser mais uma jovem licenciada à procura de trabalho, e passava a ser um organismo com uma proposta para oferecer...

Será que isso faria a diferença?!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Uma das minhas actividades profissionais é a formação. Ao longo dos dois últimos anos tenho dado formação em cursos profissionais (especialmente em cursos de Técnicos de Higiene e Segurança do Trabalho) de nível 3, 4 e 5.

Não é fácil encontrar uma empresa que esteja decidida a apostar na Ergonomia e a formação é para muitos Ergonomistas uma opção de trabalho.

Uma das empresas para a qual trabalho é o IEFP. E é sobre esta instituição que me apetece falar hoje!

É uma empresa do Estado. Presta um grande serviço à comunidade, sem qualquer dúvida! Mas nunca vi nada tão rígido, complicado e inflexível como esta instituição.
Quem quiser colaborar com a empresa, tem que apresentar um declaração de não dívida ao Estado e à Segurança Social. É ainda obrigatório apresentar uma declaração em como temos um seguro de trabalho.

Estes documentos não são nada de especial. A não ser que não se viva na cidade onde estamos registados.
Agora, eu estou registada em Oeiras, mas vivo em Estarreja (e não interessa referir os motivos pelos quais não altero esta morada) e digo por experiência própria que tentar obter qualquer uma destas certidões sem ter que me deslocar a Lisboa pelo menos duas vezes é mentira! É realmente difícil...

É um processo simples, mas quase impossível de concretizar.... E apenas termina quando eu vou a Lisboa!

No caso da Segurança Social, eu posso em qualquer parte do País pedir a certidão em causa. Depois de pedir a certidão, a delegação a que me dirigi, envia o pedido para Oeiras (local onde me encontro registada) que finalmente o envia para o Areeiro (sede da S.S. e local onde as declarações dos trabalhadores independentes são passadas) e que depois envia a certidão para a minha morada - Oeiras.
Este processo é simples... Não tem nada de mais, a não ser centenas e centenas de pedidos, reclamações, sugestões, que as pessoas de cada delegação têm que tratar. Tentar sugerir que me enviem a declaração para outra morada já seria um vírus que destruiria todo este processo! A carta nunca mais chegava a lado nenhum!

No caso das Finanças, eu não tenho mesmo hipótese. Tenho que ir a Oeiras. Aqui, faço o pedido, que depois fica na secretária de alguém durante uma semana para depois eu ir levantar. Eu posso até tentar pedir que me enviem o documento por correio, e até escrever a morada no verso do documento, mas não leva a lado nenhum!
São muitas pessoas a atender por dia, não há memória que resista... A única dúvida que fica é porque é que eu tenho que esperar uma semana e voltar a ir a Lisboa para levantar um documento que apenas necessita de uma rubrica (de um qualquer funcionário autorizado) e de um selo branco? Consultar o estado das minhas contas não dá mais trabalho para além de um click adicional no rato!

Mas tem que ser assim, porque existem regras, regulamentos, leis, chefes de secção, inspecções, etc.

Se uma pessoa começa com dificuldades em arranjar estes documentos, nunca mais consegue! O melhor é ir mesmo a Lisboa e no próprio dia tentar a sorte! Pode ser que apareça uma senhora muito amorosa e simpática que ao ver o nosso ar de aflição misturado com revolta decida tratar pessoalmente do caso... E em menos de 5 minutos temos o documento na mão!

De volta ao IEFP.
Eu moro em Estarreja, e já me desloquei 3 vezes a Lisboa este ano tendo apenas como objectivo tentar adquirir os documentos. Na primeira tentativa, fui bem sucedida. Contudo, havia uma pequena gaf na morada que aparecia na certidão da Segurança Social e um gatafunho na declaração das Finanças (tinha sido rasurada pela funcionária que a passou!)... E assim sendo, não havia qualquer possibilidade de me aceitarem aqueles documentos. Tinha que pedir outros! Não assinei o contrato!

E assim fiz... Voltei a Lisboa! Corrigiram o documento nas Finanças no momento (o tal ar de revolta!), mas o da Segurança Social apenas fiz o pedido! E, de volta a Aveiro, estando em falta o das Segurança Social não me deixaram assinar o contrato no IEFP.

A declaração não estava em falta, eu tinha uma declaração a dizer que não tinha dívidas. Essa declaração só não tinha a morada de Lisboa, tinha a de Estarreja!

Não sei o que é importante, se o facto de eu ter ou não dívidas, ou o facto de eu morar ou não em Lisboa!

Voltei então a fazer o pedido... Esperei e voltei a fazer o pedido... Esperei e voltei a fazer o pedido...
E recebia cartas do IEFP com frequência a dizer que tinha que passar a assinar o contrato!

Voltei a fazer o pedido... Recebia cartas a dizer que o pedido tinha sido encaminhado para Lisboa...

Voltei a fazer o pedido... Até que finalmente fui a Lisboa! Tive que voltar a Lisboa porque a declaração das Finanças já estava fora de prazo! Pagamos impostos de ano a ano, mas as declarações só valem por meio ano! E custam 11 Euros!

E num só dia, com muita angústia e revolta, consegui os documentos...

Voltei ao IEFP
Fui, toda contente ao IEFP assinar os contratos, mas faltava uma prova em como tinha pago o seguro de trabalho! O recibo não chegava! Mais uma vez o ar de angústia e revolta, e lá a senhora da tesouraria me resolveu o problema ligando para a sede da seguradora a perguntar se eu paguei!

E nisto vem de lá o chefe do departamento a desbaratar, a dizer que eu nem sei as chatisses que eu lhes tenho causado! E desta vez eu fico parva...

Neste processo das declarações, devo ter gasto pelo menos uns 250 Euros (viagens, refeições), para conseguir receber 499 euros que eles me vão pagar! Sem falar no desgaste físico que implica ir a Lisboa e voltar no próprio dia ou no dia seguinte...

No final acabo por receber menos do que isso por uma formação de 20 horas que dei a pessoas com o mesmo nível de formação que eu... Não é a mesma coisa que estar a falar para crianças ou para pessoas com o 12º ano, exige muita preparação! Muitas horas para além dessas 20 horas de trabalho!

E eu é que estou a dar chatisses!


É engraçado que quando nos revoltamos eles pegam no telefone ou fax ou net, e conseguem fazer as coisas. Se são todas instituições do Estado, não haverá uma forma de conseguirem as informações de dívida ou não dívida sem obrigarem uma pessoa a passar por isto?!